19.10.10
27.10.08
A FUGA DO DOENTE MENTAL
Ando outra vez por saber que sem andar não teria onde ir. Não tenho onde ir. Não importa, a caminhada me acalma e quando agora já não quero mais agredir-me. Ando mesmo sabendo que voltarei de novo ao ponto em que estava, em que era sofrido e doído respirar. Quando então respirava (mesmo assim) e alimentava-me da dor e da vontade de um dia andar outra vez. Vez agora é que andando sinto outrem que não este, o sentimento de parar. Respiro sem dor e faminto ando com os mesmos pés, no mesmo caminho, pro mesmo não-destino. Sei da falta de mim e pouco importa saber. Que há o vício da dor pungente.
Estou às voltas com o calabouço e ando em círculos para articular meus passos, sincronizar a andança e ver que é célebre o momento de parar. Fagulha. Lambeu minhas pernas que verteram sangue. Ando já com dificuldades e pausado o tempo recobro meus poderes de homem, de andar. Fagulha. Meu temporizador dispara e volto à caminhada com o cérebro penetrado e dificultando o andar encontro finalmente o prazer do não vê-lo torto. Ando agora como um cachorro sarnento, magro e feliz quando finalmente a. Fagulha. É o desesperado ato que encerrará meu passeio. Prostrado ainda tenho dedos e mãos pois é deles – percebo – o punho fechado que me sustentará. Ando então noutra modalidade. Com mãos ganho pouco terreno e ausência de sentido qualquer me toma, recobro-me à consciência do mundo. Fagulha. Fagulha. Fagulha. Há ainda, alguns loucos que julgam-me, chamam-me doente mental. Logo eu? Bem sei...
Serafim
Trinta por cento de mim é frio. Sou mais quente e ardo em morte. Sou ardente sem sorte. Evapora minha alma, minhas veias, meus cabelos, meus filhos.
Trinta por cento de mim é triste. Agarram-se as desgraças na felicidade caldo ralo. Serafim consome-se auto. Pobre serei? Sobreviverei.
Sou falácia Serafim. Trinta por cento de mim não sustenta-se.
Trinta por cento de mim é secura e dureza. Não tem água e beleza nem sentido do só. Sou só e pó. Sou nó da trigueira e riacho de beira que chora de mim por ser tão Serafim.
Ser tão Serafim me deixa cansado. Trinta por cento de mim é Sertão. Será a loucura do que é seco? Reparei apenas o caldo ralo e tive outra vez o fim. Será o fim?
Sertão Serafim agoniza a morte dos seus, impede a cura arrebatadora da fome, consome as formas de vida do homem. E vomita os ossos.
Sou mesmo, por decerto, apenas trinta por cento sítio arqueológico. Cemitério da vida outrora banida. Agora compreendo mais que antes. Que assim serei.
5.10.08
Discípulos de Emaús
em que viam santos pelos
se milagres desejares
concordarias em não tê-los
era medo, era vingança
sal da terra, em que brotei
carregado de esperança
pronto de amor. Amei
22.8.08
Sepulcro de Amor
e desobrigada
me tira do peito essa lança,
e descansa
do mau do meu corpo,
já morto,
que te impede a fuga covarde,
que invade
teu espúrio sentido de ser,
ao saber:
sou o fim do teu amor
como é lindo seu terror
Apaga de vez da memória,
a história
dos resquícios de vida que abrigo,
comigo
de quando vivemos felizes,
se dizes
que foram sofridos, em vão,
e não
destrói meu discurso a contento
se tento,
dizer não senti, se morri
viver só pra ti, não vivi
É o fim do meu lado,
assombrado
é o começo de tudo,
me iludo
pensando em te ter,
pra poder
com ódio em ti me vingar,
te matar
te amar
te roer
4.8.08
Para Serafina. A puta santa que mais amei.
e borrifo meu gozo, meu soro: "aceite!",
te casto, te santifico, somos um par,
no sagrado [onde estamos] lugar de rezar.
Te cubro de dores prazeres e pontas,
me cobras sem dedos. Dizeis “a quantas?”
Devolvo o insulto e pergunto: “estás pronta?”
recebo teus olhos com espanto. “É santa!”
Enquanto te como, não gritas
“Mantenha-se no seu lugar
que dentre as putas mais bonitas,
é a única puta que não sabe cantar”
e seguimos em silencio e em paz... como em um altar.
28.7.08
imerso, imenso.
Meu barco comigo dentro, com minhas coisas e meus bagulhos. Em mim, seu contentamento com meu silêncio, com meus barulhos. As ondas comigo em cima do barco com minhas mágoas, destroem o que não se firma no sacolejar das águas. Meu remo descontrolado sem rumo nem direção se perde no emaranhado da tormenta do meu coração. Navega sem nunca chegar com velas a meio pano onde antes deveria soprar um afago de vento insano. Guiando-me pelas estrelas descubro-te constelação e perdido sem nunca tê-las vou aprendendo minha lição, é que vou à deriva da realidade, navegante da imaginação.
Imagino a foz que deságua no meu cubículo apertado. Imagino as estrelas que não reconheço sem sequer ter-me consternado. Sou urbano. Imagino as praias, a costa e com minhas costas na sacada ao relento, imagino também o vento. Sou insano? Ele que deveria soprar e a vela imaginária que não inflaria para o barco fazer navegar. Simulo meu possível lamento. Que falta me faria o tal vento. Penso em alternativas imaginárias, tento.
Passo então à dureza das coisas concretas. Penso então na beleza das coisas discretas. Sei que vais noutro plano, então mudo meu interlocutor. Passo de imaginativo a insano, à deriva do teu amor.
É que te imagino outra coisa. Outra altura, outra alvura, outra pele, outros lábios. As pernas as mesmas. As idéias e certezas, essas sim, mudam com a frieza de quem não perderia tempo, de quem não embarcaria a contento, de quem não partilharia a falta do vento, (que não existe) de um imaginário agora triste, que agora sofre ao se meter na embarcação. Sofre, pela falta de tripulação.
Vou então eu, num plano diferente do teu. Solitário com meus fiéis de brincadeira. Não importa a física nem a madeira. Vou feito fumaça, vapor. Não me corrói a ausência de tê-la, apenas me distrai, apenas um pouco de mim se vai com furor. O mais importante, é claro, fica! Pra alimentar aquilo que me navega, aquilo que em mim se entrega à vontade que nunca sana, à vontade que é minha gana. Tenho gana de seguir adiante, comigo dentro, com minhas coisas e meus bagulhos. Tenho gana de seguir adiante, à fundo, sempre fundo nos meus mergulhos.
22.7.08
Anônimos
Anônimos prazeres se anulam
no correr do dia que se esvai sem
ou nem perceber-se. Prazeres.
Anônimos entoam seus cantos aos
prantos, enquanto diluem-se em
meio às perfeições das vidas. Vazias.
Anônimos declaram-se, deparam-se
com outros anônimos no correr
dos dias seus e dos outros. Poucos.
Anônimos aqueles que sabem-se e
fazem-se de toda forma e qualquer
forma que assumam. Somem.
E só resta o homem.
Yolanda, estranha.
contigo pelas redondezas.
Miramos sal, crianças e estranhezas que
não calhamos reconhecer.
Era sempre o instinto do resistir. Estranhei.
21.7.08
esconde-se comigo, com o próprio cão
palpita em zelo sem pelo o jargão
do convívio constante perigo do ‘não’
que antes de tê-lo sabias em vão
pois já palpitava em mim coração
e todo o sentido convive comigo
periga o canino a ladrar ao irmão
e torna-se grande o perigo do tê-lo
que cresce a ameaça pulsante de vê-lo
e fica tão grande provoca aversão
maior até mesmo que o medo do cão.
Eu, palhaço (e o picadeiro ausente)
meu estômago corroído não revela meu sentir.
É o leão que te tolera ser o inverso do animal
e açoitar tua própria fera. Casto instinto visceral.
Vem o monstro vem o grito. Reconheces sua história?
Via o macaco bem mais aflito, da mulher tornar-se escória.
A vertigem globo mundo. De vertigem, vil viagem
que te risca a ir mais fundo buscando a glória da passagem.
Até os que voam céu acima, vendem caro suas almas
enfrentariam a estriquinina, pela doce carícia das palmas.
Respeitável minha trupe, não o mundo de sorrir,
respeitável minha ilustre brincadeira de fingir.
24.6.08
pleito partido
meu lugar é onde haja alimento
meu saber é anarquista
clamor ao caminhar em você austera
alimentar-me de teu conhecimento
saciar meu engodo comunista
e você sobre mim não pondera
teu viés me cativa. És Tormento
no palco palanque descubro-me artista
24.5.08
Brasil, 10 de maio de 1980
o vento era mais , sempre mais
encontrei-me com meus pseudônimos
cansei-me da vista de palhaço
melhor voltar atrás, sempre atrás
pra deliberar meus desejos anônimos
Minuando
persiste, insiste: fique
mas ele não fica
volta e cai em mim
em ti, tateia as teclas
em si, simula o som
em fá, fazemos o que sabemos
simulação, simula meu coração.
14.4.08
escárnio social
Quais prostíbulos à perversão
visita em busca tua mente?
Agourento em devassidão
avacalhais tua própria gente?
Identificai-te em meio à plebe,
marchais senhor do próprio curso.
O burro vemos, não percebe,
quão execrável é tal discurso.
Maldizer social
Meu amigo
João Brasil
é mais burro
que a soleira,
açoita o pobre,
açoita e morre,
pois lhe açoitam
noite inteira.
Meu amigo
João Brasil,
pobre João,
pobre coitado.
Só se queixa
do que não viu
pois é cagão
o desgraçado.
Age passivo
já admitiu
seu crime antes
de ser julgado,
e se condena
no seu covil,
noite após noite
a ser açoitado.
Meu amigo
João Brasil
é mais burro
que a soleira,
açoita o pobre,
açoita e morre,
pois lhe açoitam
noite inteira.
4.4.08
...
que a própria palavra é ardente, é sexo
libertina usa a língua, boca, sacanagem
todos os duplos sentidos tem razão, nexo
mete a língua, mete tudo. Metalinguagem
que o sentido se me falta lhe provenho
dar pano pra etimologia, dar descoberta
grito eureka e sem cobertor lhe emprenho
com parâmetros, diâmetros é demarcado
o limite do representante e do representado
faz pares e parênteses de perfil paradoxo
dá conceito à lascívia, o menos ortodoxo
20.3.08
Livres Campos
Pesa
no meu crânio
a rotina parnasiana
de ser rico
de ser feliz
de ser amado
e tombam minhas
pálpebras à beleza
do ser concreto.
Se me resgatam à
margem de minhas
aspirações,
que sou
afortunado e
insensato.
Planto meu discurso:
sois assim como eu,
desesperadamente cru.
Temerário,
sois branco e santo.
Minha conjugação de fé.
É oportuno meu amor
meu gozo
meu júbilo.
11.3.08
primeiro tratamento
máquina mórbida,
meu papel
meu papiro
meu crivo
tecla do fim
da discórdia,
meu cordel
de mentiras
que eu crio
10.3.08
Ano Luz
o sistema solar
de cabeças planetárias
flutuantes.
Vão contando os
cometas de ninar,
constelando-nos em
pontos brilhantes.
Nossas rotas vão
cruzadas no ar,
nossas forças
repelindo-nos distante.
Vai no céu
a caminho de amar
meu rastro de fogo
errante.
Cai em mim
estrelinha do mar
que é cadente nosso
amor infante.
3.3.08
Murmúrio de fé *** [ alegoria escravagista ]***
28.2.08
Insano Incerto

Talvez eu desenvolva
du pla per so na li da de
e passe a conversar
comigo com freqüência.
Talvez eu consiga
um amigo por comodidade,
pra serrá-lo ao meio
e sustentar minha demência.
Talvez eu contraia
síndromes em série,
fobias convulsivas,
ataques caóticos.
Talvez eu torça pra
que a sanidade tolere
conseqüências nocivas
do meu surto psicótico.


