27.10.08

Serafim

Trinta por cento de mim decerto deriva de algum sítio arqueológico antigo. Sou mais antigo que novo. Outra vez sou povo e o resto de mim, outra vez Serafim.

Trinta por cento de mim é frio. Sou mais quente e ardo em morte. Sou ardente sem sorte. Evapora minha alma, minhas veias, meus cabelos, meus filhos.

Trinta por cento de mim é triste. Agarram-se as desgraças na felicidade caldo ralo. Serafim consome-se auto. Pobre serei? Sobreviverei.

Sou falácia Serafim. Trinta por cento de mim não sustenta-se.

Trinta por cento de mim é secura e dureza. Não tem água e beleza nem sentido do só. Sou só e pó. Sou nó da trigueira e riacho de beira que chora de mim por ser tão Serafim.

Ser tão Serafim me deixa cansado. Trinta por cento de mim é Sertão. Será a loucura do que é seco? Reparei apenas o caldo ralo e tive outra vez o fim. Será o fim?

Sertão Serafim agoniza a morte dos seus, impede a cura arrebatadora da fome, consome as formas de vida do homem. E vomita os ossos.

Sou mesmo, por decerto, apenas trinta por cento sítio arqueológico. Cemitério da vida outrora banida. Agora compreendo mais que antes. Que assim serei.

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