27.10.08

Controle de erradicação dos seres humanos:

A FUGA DO DOENTE MENTAL

Ando outra vez por saber que sem andar não teria onde ir. Não tenho onde ir. Não importa, a caminhada me acalma e quando agora já não quero mais agredir-me. Ando mesmo sabendo que voltarei de novo ao ponto em que estava, em que era sofrido e doído respirar. Quando então respirava (mesmo assim) e alimentava-me da dor e da vontade de um dia andar outra vez. Vez agora é que andando sinto outrem que não este, o sentimento de parar. Respiro sem dor e faminto ando com os mesmos pés, no mesmo caminho, pro mesmo não-destino. Sei da falta de mim e pouco importa saber. Que há o vício da dor pungente.

Estou às voltas com o calabouço e ando em círculos para articular meus passos, sincronizar a andança e ver que é célebre o momento de parar. Fagulha. Lambeu minhas pernas que verteram sangue. Ando já com dificuldades e pausado o tempo recobro meus poderes de homem, de andar. Fagulha. Meu temporizador dispara e volto à caminhada com o cérebro penetrado e dificultando o andar encontro finalmente o prazer do não vê-lo torto. Ando agora como um cachorro sarnento, magro e feliz quando finalmente a. Fagulha. É o desesperado ato que encerrará meu passeio. Prostrado ainda tenho dedos e mãos pois é deles – percebo – o punho fechado que me sustentará. Ando então noutra modalidade. Com mãos ganho pouco terreno e ausência de sentido qualquer me toma, recobro-me à consciência do mundo. Fagulha. Fagulha. Fagulha. Há ainda, alguns loucos que julgam-me, chamam-me doente mental. Logo eu? Bem sei...

Serafim

Trinta por cento de mim decerto deriva de algum sítio arqueológico antigo. Sou mais antigo que novo. Outra vez sou povo e o resto de mim, outra vez Serafim.

Trinta por cento de mim é frio. Sou mais quente e ardo em morte. Sou ardente sem sorte. Evapora minha alma, minhas veias, meus cabelos, meus filhos.

Trinta por cento de mim é triste. Agarram-se as desgraças na felicidade caldo ralo. Serafim consome-se auto. Pobre serei? Sobreviverei.

Sou falácia Serafim. Trinta por cento de mim não sustenta-se.

Trinta por cento de mim é secura e dureza. Não tem água e beleza nem sentido do só. Sou só e pó. Sou nó da trigueira e riacho de beira que chora de mim por ser tão Serafim.

Ser tão Serafim me deixa cansado. Trinta por cento de mim é Sertão. Será a loucura do que é seco? Reparei apenas o caldo ralo e tive outra vez o fim. Será o fim?

Sertão Serafim agoniza a morte dos seus, impede a cura arrebatadora da fome, consome as formas de vida do homem. E vomita os ossos.

Sou mesmo, por decerto, apenas trinta por cento sítio arqueológico. Cemitério da vida outrora banida. Agora compreendo mais que antes. Que assim serei.

5.10.08

Discípulos de Emaús

Isaías de Emaús
em que viam santos pelos
se milagres desejares
concordarias em não tê-los

era medo, era vingança
sal da terra, em que brotei
carregado de esperança
pronto de amor. Amei