28.2.08

Insano Incerto




Talvez eu desenvolva

du pla per so na li da de

e passe a conversar

comigo com freqüência.


Talvez eu consiga

um amigo por comodidade,

pra serrá-lo ao meio

e sustentar minha demência.


Talvez eu contraia

síndromes em série,

fobias convulsivas,

ataques caóticos.


Talvez eu torça pra

que a sanidade tolere

conseqüências nocivas

do meu surto psicótico.

26.2.08

legista




Veias secas

língua áspera,

vigio meu
alvo tácito,
meu defunto.

Pulso quieto
minha diáspora.

Emigram minhas
bactérias em
conjunto.

para diluir




De tempos em tempos devemos incendiar as paredes, xingar a mãe dos outros e beber leite azedo. Devemos dar mau exemplo às crianças, chutar alguém sem motivo e roubar uma vaga no estacionamento. Devemos sabotar nossos prazeres, ser cúmplices dos ratos e inimigos dos cães.


Juntos pela destruição do equilíbrio, pela abolição da mediocridade e pela aceitação do nosso viés [natural] de vilão.

22.2.08

Picharam no muro da mercearia: "eu te amo"




I

Paixão profunda guiava a mão
Enquanto a noite sustentava,
do seu clichê, maior jargão
a identidade do dono guardava.
No casto muro resplandecia
jura plena de amor etéreo,
riscado à mão se me parecia
declaração de um amor sincero.

II
Pois invejei ao raiar do dia
o destinatário de tal menção,
que recebeu na mercearia
um “eu te amo” em deflagração.
E o publicado de posto teve
um descontrole do coração,
o ser amante que se conteve
não revelou-se na pichação.

III
Seguia assim indiferente
há muito tempo a euforia,
que desprezava o amor latente
e da mensagem se excluía.
Não fazia muito caso
posto o muro a tal mensagem,
enveredada a longo prazo
desfigurava a paisagem.

IV
Apagada quase inteira
resistia à vil memória
mas da morte já à beira
resguardava sua estória
sem sequer ter nomeado
o ‘bravo’ salvo da escória
que abençoou o ser amado
com mensagem grande glória

V
Quando tudo já se esquece
da valia ali pichada
junto ao muro estabelece
um brado forte na calçada
surge um tal que se parece
com ninguém menos que nada
e se revela como prece
o ser amante da figura amada


VI
No instante em que se deu
o ser amado ali passava
a pichação lhe acometeu
que o ser amante declarava
e com os brônquios pois um fim
no anonimato de ser amado
“esse ‘eu te amo’ é para mim,
te amo de volta deste lado!”

12.2.08

descompasso do metrônomo




Na medida em que consomem-se as horas, esgotam-se também as possibilidades de um mundo onde não haja guerras.

Num segundo pode-se compreender coisas que - às vezes, uma vida inteira não é capaz de revelar. Devemos nos perguntar se terá sido este, um segundo vazio posto que o próximo jás morto. Quem terá então, coragem de subjulgar o motivo nosso de cada dia para contaminarmos com ódio a razão?

Ponemo-nos a verter sangue à espera do dia em que o amor vigore.

Vamos esperar um segundo, e contá-lo rumo a eternidade.

11.2.08

Yolanda I






Apaguei o rascunho
e a duras penas terminei aquilo que estava pronto desde sempre. Já não há razão para tanto desconforto.

a edificação que acontece no mundo




Acordou
e era fruto
de sí.


No almoço
temperaram
sua salada.


À tarde os fantasmas
reformam
sua edificação.


Pelo chão
por suposto
que sim


usam giz
vão marcando
a caminhada.


Dormem todos
outra vez
e consomem
quem são.

* Viço * (rodinha)

verso inverso de prosa solta
salta inteiro da minha pena
prosa imersa no verso preso
faz inverno no meu poema

vai curar o sentido ausente
pra esfriar a palavra minha
perderá o seu viço quente
"esquecí que uma vez o tinha"

verso inverso de tanto calo
se verte em sentido meu
prosa encontra o primeiro talo
de onde o verso solto nasceu.

6.2.08

Querido Francisco [*um olhar para o futuro]

Tudo que há,
irá revelar-se
em grupos de três.


F r a n c i s c o

será indagado
por duas vezes.


São:

Três argumentos
dois mistérios
uma resposta


Passado

Presente
Futuro


Perguntaremos
apenas o
t r i v i a l.