24.12.07

Manual da Prevaricação

Pra valer meu desapego,
cedo a ti meu precioso.
Vai virar desassossego,
q´ainda sou ganancioso.

Pra valer minha riqueza,
furto ouro qual vitória.
Se me indagas da nobreza,
falhará minha memória.

Pra valer minha armadura,
visto sério, algoz viril,
Não me aponte rachadura,
fácil, fácil parto em mil.

Pra valer minha esperteza,
que te engano faço conta.
Esperta és tu com sutileza,
que pra mim te faz de tonta.

Vira a cara e não me veja,
sou mordaz, covarde, vil.
Que meu “eu” que te caleja

pode ser meu “eu” fabril.

13.12.07

Em tudo há da coisa o seu contrário

Quisera eu matar-te de prazer,
enquanto feliz me agradecia.
Negava algoz o teu viver,
que de tristeza eu padecia.

Em tudo há da coisa o seu contrário,
que equilibra a diferença do igual.
Em tudo há o contraponto portuário,
que nivela o incomum e o banal.

Há o irmão valente e viril,
que infeliz carrega covardia.
Vendo o caçula fraco no covil,
alegremente mostrar valentia.

Em tudo há da coisa o seu contrário,
que equilibra a diferença do igual.
Faz nascer um saber arbitrário,
pra liberar a ignorância do boçal.

Há do descarado o frouxo riso,
que vai revelar gloriosa vitória.
Virá do tímido a queda ao piso,
escondida pela carranca notória.

Em tudo há da coisa o seu contrário,
que equilibra a diferença do igual.
Há em tudo natureza e há cenário,
que distingue o homem do animal.

Pra encerrar há o princípio do amor,
que começa pra findar a solidão.
Desfazendo a finalidade do ódio,
principiando a perfeita comunhão.

Pois em tudo há da coisa o seu contrário,
que equilibra a diferença do igual.
Há em tudo um real imaginário,
pra tornar o corriqueiro especial.

11.12.07

O elevador da memória

Não se sabe ao certo sua idade. Não se pode precisar suas preferências musicais ou o que ele gosta de comer. É impossível dizer das suas manias, dos seus hábitos de consumo. Não se sabe dos seus amores, se eles existem ou não. Nada se pode falar a respeito de suas pretensões, seus planos para o futuro.

Mas sabe-se da sua rotina diária.

Toda manhã João pega o mesmo elevador congestionado para subir até o céu,
e encara a briga matinal para arrumar seu cantinho no elevador da memória.

Cada qual do seu jeito, todos vão se arrumando, reclamando, pensando como seria bom ir de escada.

As caras enrugadas e as bundas amassadas nunca mudam. São sempre iguais, banais, normais. Para João, todas sem nome.

Toda manhã o elevador da memória enguiça num certo ponto. Até certo ponto é possível dizer que o enguiçamento é fruto do excesso de peso. Mas desse ponto em diante o que pesa mesmo são as preocupações, frustrações, confusões de cada uma das caras e bundas.

Só depois de muito tempo o enguiçamento desaparece e o elevador desadormece e volta a subir (mesmo sem manutenção). Isso só acontece porque todas caras e bundas trocam seus lugares, trocam seus olhares e esquecem seus pesares. Leve outra vez o elevador sobe.

Na medida em que aproxima-se do céu o elevador vai perdendo velocidade novamente. São os carmas, coisas corriqueiras cotidianas que quando querem voltam às caras enrugadas que por sua vez tornam a puxar as bundas amassadas para baixo. O elevador pesa.

Quase sem agüentar o elevador chega ao seu destino, esbaforido. Vagamente uma bunda ou outra lembra do caminho do escritório e ruma perdida antes de encontrar seu norte. João sai.

Toda manhã ao sair do elevador, João tropeça. E ri a beça. E começa lembrar do caminho do trabalho. “Pro caralho o horário, que este cenário imaginário me satisfaz”. E curte a paisagem.

E se esquece da vida. E se esquece de si. E se esquece de mim. E esse esquecimento acomete a todas as bundas, todas as caras. Todos parados olham durante o dia, durante a vida toda para o cenário. A Terra. (e enrugam suas caras).

Ao fim do dia, ao fim da vida, o elevador que partiu sem ninguém notar volta ao andar do céu onde João, e seus demais apreciam a beleza pura das coisas. E soa a campainha.

E todos aglomeram-se novamente. João lá na frente quase não sente o empurrão demente da massa de bundas amassadas que se amassam (sim, é por isso) enquanto atropelam-se para entrar de novo no elevador da memória.

João já não se lembra... e o elevador desce numa velocidade absurda. E todos lá dentro, incluindo o João, se misturam: cara de um com bunda de outro. Uma metástase alucinante.

Quando chega, o elevador da memória abre as portas e as bundas saem lá de dentro ainda procurando suas caras. Não se sabe ao certo se os conjuntos formados depois da bagunça toda, se cada dupla de bunda com cara confere. Mais nisso nada difere. Porque elas não se lembram uma das outras e o João – aquele que começamos a ter certo tipo de proximidade, se perde. Amanhã tem mais uma viagem.