22.2.08

Picharam no muro da mercearia: "eu te amo"




I

Paixão profunda guiava a mão
Enquanto a noite sustentava,
do seu clichê, maior jargão
a identidade do dono guardava.
No casto muro resplandecia
jura plena de amor etéreo,
riscado à mão se me parecia
declaração de um amor sincero.

II
Pois invejei ao raiar do dia
o destinatário de tal menção,
que recebeu na mercearia
um “eu te amo” em deflagração.
E o publicado de posto teve
um descontrole do coração,
o ser amante que se conteve
não revelou-se na pichação.

III
Seguia assim indiferente
há muito tempo a euforia,
que desprezava o amor latente
e da mensagem se excluía.
Não fazia muito caso
posto o muro a tal mensagem,
enveredada a longo prazo
desfigurava a paisagem.

IV
Apagada quase inteira
resistia à vil memória
mas da morte já à beira
resguardava sua estória
sem sequer ter nomeado
o ‘bravo’ salvo da escória
que abençoou o ser amado
com mensagem grande glória

V
Quando tudo já se esquece
da valia ali pichada
junto ao muro estabelece
um brado forte na calçada
surge um tal que se parece
com ninguém menos que nada
e se revela como prece
o ser amante da figura amada


VI
No instante em que se deu
o ser amado ali passava
a pichação lhe acometeu
que o ser amante declarava
e com os brônquios pois um fim
no anonimato de ser amado
“esse ‘eu te amo’ é para mim,
te amo de volta deste lado!”

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